quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Um conto africano

Uzulu Migabwe era um homem honesto.

Não gastava mais do que podia, economizava para comprar sua casa e carro e procurava ajudar seus vizinhos, sempre que algo não ia bem na cidadezinha em que morava.

Sua forma simples e franca de viver lhe rendeu muito mais do que ele podia esperar. A comunidade precisava de um representante, no comitê político local e Uzulu era a pessoa certa, ao ver dos que o circundavam.

Convencido por seus amigos, Migabwe ingressou na política. Sua aura de integridade era a propaganda necessária, num ambiente essencialmente corrupto em que até pessoas eram literalmente vendidas, como escravas, favores eram trocados por dinheiro e recursos públicos eram perdidos pelos meandros da propina e da imiscuição, nos negócios público, dos interesses escusos de criminosos que dominavam o Estado.

Uzulu galgou cargos importantes, rapidamente, cercado que sempre estava de um pessoal legitimamente interessado em melhorar a sociedade em que viviam, depurando a maldade e a cobiça e se transformando numa dor de cabeça dos que defendiam o status quo, importante para manter o fluxo de dinheiro proveniente de impostos, para os bolsos particulares de escroques que dilapidavam o tesouro popular, impedindo a construção de escolas, estradas e hospitais.

Demorou um pouco, mas Uzulu conseguiu milagrosamente chegar à condição de prefeito. Seu governo, bem aconselhado, revelou-se uma dádiva para os seres humanos que sobreviviam a duras penas, naquelas paragens. Medidas simples, como encanamento de água de um rio distante, para uma bica no centro do município, trouxe a água para muito mais próximo do que costumava ser, sob a administração anterior. Cozinhas coletivas facilitavam a cocção dos alimentos. Fossas foram cavadas. Biodigestores produziam gás a partir de dejetos colhidos de humanos e animais. Para evitar moscas, tudo era aproveitado, até como adubo e o lixo que não servia para isso era reciclado, criando um novo mercado de trabalho. Nas fazendolas que cercavam a cidade, a construção de cisternas, com ampla participação de homens e mulheres cansados de tanta estiagem, permitia a armazenagem do líquido precioso em épocas menos dadivosas de chuvas.

A localidade, mesmo sendo pobre, progrediu. Menos gente passava fome. Uzulu era um nome que se pronunciava sempre, com admiração.

Os facínoras, no entanto, como é de se feitio ao redor do mundo, inventaram que Uzulu tinha obtido a casa em que morava com recursos do governo, ilicitamente obtido em tramóias e roubos de toda a sorte. A história foi tão bem armada que havia até documentos falsos para “provar” o que era dito. Uzulu foi preso. A imprensa da região, comprada, noticiou que o conhecido benfeitor era na realidade o pior dos bandidos.

Uzulu só não perdeu sua morada porque seus documentos eram consistentes. Mas, inocente que era, inclusive do pondo de vista da forma de combater seus detratores, caiu em depressão e quase se suicida. Para o povo, parecia que seu antigo defensor não passava de mais um pulha, que os enganara... mesmo com todos os benefícios que estavam gozando, as pessoas se indignavam e se esqueciam facilmente do que eram suas vidas, antes de Migabwe.

Os amigos de Uzulu sabiam de seu valor. Mas o nome estava irremediavelmente destruído. Os fofoqueiros voltaram ao poder. Como é costumeiro em países subdesenvolvidos, demoliram todas as obras, não deram manutenção ao que não podia ser desfeito e logo a vila era, de novo, um antro de miséria no centro da África.

E... claro. A população, com a ajuda dos adversários, culpou Uzulu pelo castigo dos Deuses.

Essa história se repete todos os dias. Serve para nos alertar de que o mal existe, e, para nos livrarmos dele, como uma vacina, é preciso ter um pouco de seu DNA dentro de nós, para que possamos nos imunizar e, conhecendo-o e sentindo-o, afastá-lo com suas próprias armas, se necessário, ou usar habilidosamente suas forças contra ele mesmo, tal e qual a filosofia do judô.

Um mestre da paz tem também de ser um mestre da guerra, se quiser continuar fazendo o bem e não ser destruído pelo mal.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Templos e Deuses


Há muito tempo atrás, uma mulher entrou num templo e escolheu a entidade que representava a sua necessidade de cura. Sua filha estava ao lado, dirigindo suas preces para um outro ser espiritual que lhe traria um bom casamento. Na imensa estrutura, várias outras pessoas queimavam insenso e prometiam oferendas, cada uma com seu caso especializado e com um responsável por ele, no mundo alémtúmulo.

Todos, no entanto, reservavam uma reza especial para o chefe dos que eram invocados, em busca das mais variadas soluções. Tratava-se de um ser misterioso... uma tríade, um em três, três em um.

As referências dessa história verdadeira se perdem nos relatos do passado remoto, com raízes fincadas na mesopotâmia, na Índia, nas cidades-estado gregas e na Roma antiga, com seus múltiplos deuses, sempre comandados por um ou o conjunto de deidades principais.
O despertar do zoroastrismo, judaísmo, sikhsmo, Bahá'ísmo, implicou na recusa a Olimpos, campos celestes povoados por criaturas poderosas e outras criações. Foi dito: Só há um Deus. No cristianismo primordial, também se reafirmava o dogma e no Islã a mesma sentença: Só há um Ser Supremo.

Tudo bem, não é? Mas a história acima se refere não a algo que aconteceu 3 milênios atrás... ocorreu numa igreja católica, faz uns 20 anos... mas se repediu faz uns 20 minutos.

O catolicismo teve de se apropriar de elementos culturais dos lugares onde ia se desenvolvendo, a fim de adaptar as características dos seus habitantes às singularidades do judaísmo reformado. Nasceu, portanto, um novo olimpo, com deuses chamados de santos e a entidade maior composta de filho, espírito santo e pai. Claro, entre outros motivos, para poder explicar a divindade de Jesus. Sacrifícios humanos foram substituídos pelo do próprio Cristo, em carne e sangue representado pela hóstia e o vinho, tudo simbólico, mas muito real... ali estão a carne e o sangue e o fiel realmente acredita na transmutação... e come. E bebe.

Não há nada demais nisso tudo... só que um cientista não se conforma com a sentença de um padre ou pastor... ele vai a fundo e desnuda a natureza das coisas. Depois de Cristo, veio o demônio como um adversário divino... e a tudo recomeçou: DOIS DEUSES, um antagônico ao outro, pois, se Deus é puro amor, de onde vem tanto ódio?

Se formos católicos, somos politeístas, tanto e quanto o foram os gregos, os romanos e também o são os praticantes do Candomblé, que aliás não sentiram nenhum problema em associar seus deuses aos santos católicos, dada a íntima identidade das crenças. O Candomblé, ao que se sabe, foi sábio em se adaptar, para não se extinguir. Como o bambu, dobrou-se à intempérie da intolerância, mas manteve-se íntegro, no seu âmago.

Aliás, o catolicismo fez a mesma coisa. Então, que tal voltar aos primórdios das lições do Mestre dos mestres e tratar de amar ao próximo, sem lhe criticar a religião (evitando olhar para o próprio umbigo ou esquecer o próprio teto de vidro) ou buscar converter-lhe a todo custo?
Que uns respeitem aos outros. Talvez assim haja menos sangue derramado em razão de balas e bombas, por disparidade de crenças, e apenas o vinho se afigure no quanto corre em nossas veias, não importando a natureza religiosa de ritos e verdadeiras faces.

Que a paz reine em suas casas, trabalhos e almas.

sábado, 17 de janeiro de 2009

A prece


Orar é uma prática muito saudável. Seja qual for a crença de quem se liga ao Universo (religião-religare), o mantra acalma a alma e propicia um estado de espírito essencial para quem quer viver bem. Na tristeza, encontramos forças para suplantar o momento ruim. Na alegria, buscamos e obtemos a serenidade necessária para entender a transitoriedade do instante efusivo, cheio de risos, pois a vida ensina que logo após, nos altos e baixos que nos são destinados, algo não tão agradável nos espera. Amém, Axé, Hosana, Shalom, Salamaleikum.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Suddenly I see


Suddenly I see

De repente, ela aparece no Jô, toda linda, toda maravilhosa e de repente eu a vejo. KT Tunstall, cantora e guitarrista escocesa, dizendo bem alto: Para o inferno de onde eu venho, pois o que importa é que sou boa.

E assim são bons Caetano, Gil e Frank Sinatra, não importa se vivos ou mortos, até hoje eu choro (mesmo) ouvindo uma certa canção do Sinatra... ela simplesmente está lá e me faz lembrar não sei o que, no meu passado, quando aliás nem dava a mínima bola ao que cantava o sujeito de olhos azuis. Caetano canta um bolero antigo, falando da mulher amada, acho que talvez com mais emoção do que a voz que originalmente o interpretou.

O mundo fica mais lindo, mais avançado, mais mais mais, quando a gente apaga a nacionalidade do talento e se apega apenas ao talento. O cientista genial descobre algo que muda a nossa vida para sempre. O político, bom administrador, facilita a nossa vida. A menina bonita que passa na rua e sorri para nós. Uma vez foi assim... um dia inteiro alegre por causa de um sorriso. Eu não sabia de onde ela era. Não sabia a sua idade (era muuiiitoo jovem), mas tinha um inconfundível talento para sorrir e fazer felizes pessoas à sua volta. Seu sorriso habitou minhas horas e lembro dele. Embora não saiba mais como desenhar seus olhos, seu nariz, seus cabelos. Só lembro que aquele sorriso, que veio não sei de que país, inundou meus momentos e tornou especial a estadia naquele hotel. O mundo está cada vez menos brasileiro (ou americano, ou holandês, sudanês ou russo) e cada vez mais mundo. Aliás, sempre foi assim, só que agora está mais evidente. Quantos falam, do passado, ensinando coisas que fazem muito sentido no presente? Confúcio, Buda, Gandhi, Jesus, Einstein, Maomé, Spinoza: Suddenly I see.

Aprendi, outro dia, a passar e dobrar uma camisa social com um japonês bem-vestido, num vídeo do Youtube, e o cara ensinava melhor na língua dele do que um outro, em inglês. Quer dizer, ele era um talento como professor. Em sua homenagem, hoje, fui trabalhar com uma camisa bem-passada. Por mim.

Mas, como o mestre japonês que só apareceu no You Tube para facilitar a minha vida e a menina do sorriso encantador, que sumiu e provavelmente jamais será vista de novo, suddenly I keep seeing people who are good to me (de repente continuo vendo e entendendoo gente que é boa para mim).

segunda-feira, 21 de abril de 2008

É proibido fotografar

Todo mundo que me conhece sabe que adoro fotografar... mas nem sempre posso fazer isso. Trabalho no Tribunal, o lugar mais sem graça no mundo para se fotografar, embora, com arte, se possa extrair muito de lugares aborrecidos. Não que o trabalho lá seja chato... muito pelo contrário. Ali há conflitos e nada mais interessante, para se adentrar no âmago do ser humano, que uma briguinha, ou brigona, sobre assuntos como: Liberdade, Patrimônio, Honra etc. Tudo com letra maiúscula, para dar bem a dimensão do que é realmente importante. No fim, o Judiciário é um processador de conflitos, para que eles não sejam tratados pessoalmente, ou seja, no tiro, na faca, no veneno.

Bem... voltando às fotos, é muito estranho que em certos locais não se possa usar de câmeras, quando sabemos que esses locais são tão públicos quanto jardins ou estradas... tudo pago com nosso dinheiro, certo? Certíssimo. Mas... não soa estranho ser necessário uma “autorização” para fotografar, quando aquilo ali é nosso? O que há de tão secreto nos corredores da justiça que não pode ser registrado? E também não é tão ridículo essa proibição, quando se sabe que TUDO pode ser retratado, gravado, documentado hoje, com os microfones e câmeras diminutos, que a tecnologia produz, todos os dias?

Talvez seja o medo de câmeras grandes (a minha nem tão grande assim, é, embora cause uma certa admiração pelos que não são muito afeitos ao mundo da fotografia). De qualquer maneira, fica aqui a minha estranheza... o que significa, então, o art. 37 da Constituição, que diz ser obrigatório, no âmbito oficial, a transparência no serviço público e a possibilidade dos cidadãos verificar como SEU DINHEIRO está sendo gasto? Olhe bem... não estou dizendo que eu deseje tirar fotos de GENTE... gente (mesmo autoridades) tem direito a uma certa privacidade e não pode, realmente, ser filmada e fotografada o tempo inteiro... só durante entrevistas (é assim que penso... todo mundo tem direito a sossego e o assédio dos papparazzi é o fim da picada).

Deve-se respeitar o direito de se por, de vez em quando, o dedo no nariz, o direito de arrotar, de soltar um pum, o direito de bocejar. Não se pode, também, incomodar pessoas com perguntas insistentes, mal-educadas e inconvenientes, expondo ao ridículo autoridades e artistas, como se faz em programas ditos “informativos”.

Mas não ser possível fotografar paredes, corredores, plantas, escadas, elevadores... por favor! Se tudo continuar assim, vamos cada vez mais ser considerados a pátria do exagero e estátuas em parques não vão mais poder ser capturadas por câmeras; vão proibir que se fotografe obras de arte (tem museu aí já fazendo isso, ao pretexto de que os flashes prejudicam as pinturas) até o dia em que o simples olhar para um busto de um general do século XIX possa ser encarado de maneira suspeita...

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Homofobia e outros preconceitos

Escrevo a respeito de um artigo que li, ao acaso, na Internet. O Autor sustenta que o homossexualismo (que considera abominável e imoral) sempre foi objeto de repúdio, inclusive na Grécia antiga. O volume de informações é enorme... muita coisa falando do comportamento homossexual na antiguidade (entre as quais um artigo numa revista de história, que está nas bancas).

A pergunta, no entanto, racional é: faz sentido perseguir quem opta por este ou aquele caminho, desde que seja algo também aceito e praticado pelo parceiro? Uma amiga tem inquilinos gays, um casal de rapazes. Afora um sonzinho alto, não incomodam ninguém.

Conheço outro homossexual que presidiu uma organização e sua administração foi considerada um modelo a ser seguido. Já tive amigos heteros que eram o que há de pior em desonestidade, o que foi descoberto posteriormente. O que penso é que a vida do outro é problema do outro, e só passa a ser nosso problema se houver uma invasão em nossas existências, como que obrigando-nos a fazer o que não queremos, sem que haja uma lei que permita isso. Acho que o mesmo deve ser dedicado aou próximo. Se ele for judeu, problema ou virtude dele. Se for Iraquiano, negro, oriental, mulher, idem... se for gay, não tenho nada a ver com isso. Só não pode ser cruel, nem fazer o mal a quem quer que seja. Fazer o mal é roubar, trair (no sentido de contar um segredo a um inimigo), mentir, matar, ferir, entre outras obviedades. Se fulano quer se vestir de mulher, não tenho nada a ver com isso. Se quer se casar com outra pessoa do mesmo sexo, também não tenho nada a ver com isso.

Crianças abandonadas à própria sorte é que é uma imoralidade terrível. Velhos abandonados, morrendo nas ruas de frio, é que deveria suscitar nossa indignação. Minas espalhadas pelos solos de países em guerra, aleijando e matando pessoas, é que deveria ser o objeto de nossa preocupação. Agora, se o cara trabalha, é honesto, paga os impostos direitinho pode fazer o que quiser entre quatro paredes (menos explodir o prédio). Se respeita o limite da lei, e somente da lei (e essa lei há de ser constitucional e consentânea com os princípios dos direitos humanos).

Pouco importa o que aconteceu na Grécia ou algum mandamento louco contido num livro religioso, cujas determinações são permanentemente relativizadas e esquecidas... ou alguém que seja cristão se acha, ainda, obrigado a circuncidar-se ou a não comer carne de porco ou a atirar pedras em adúlteras? O homem evolui... livra-se de preconceitos, regras irracionais, posicionamentos sem qualquer base científica ou, pelos costumes atuais, morais. Amar ao próximo como a si mesmo, deveria ser a regra... e isso significa aceitar o próximo como ele é, no contexto em que estiver.

Essa é a maneira moderna (atual) de pensar. Outros posicionamentos são ou muito avançados ou baseados em inverdades históricas, fruto de ilações desprovidas de qualquer base real. Quero um mundo de paz para meus filhos. Não um mundo de ódio e incompreensão, que gera guerras, sofrimento e morte.

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Tropa de elite.


Muito se escreveu sobre o filme aqui referido. Sobre as cópias piratas. Sobre o assunto tratado na película. Bem... começando pela disseminação dos DVDs clandestinos entre os camelôs, é bem possível que o sucesso já registrado no cinema não fosse assim, tão retumbante, se não houvesse sido “liberada” a cópia para o deleite dos curiosos. E o filme se revelou tão bom que passou de boca em boca. Atores foram revelados. Outros tiveram seu prestígio catapultado a índices nunca imaginados. E TODO MUNDO falou do filme.

Nas favelas cariocas, até traficante deve ter torcido pelos homens de preto armados com “emedezesseis” ou “aerrequinzes”, aquela arma americana bonitinha que faz um estrago danado e tem uma precisão incrível. Não sei se foi de propósito que a cópia “vazou”... mas acho que os responsáveis pelo filme certamente não teriam o mesmo sucesso nas telonas, se não houvesse uma prévia na telinha. O fato é que a grande maioria que viu o filme na tv é de baixa renda... gente que não pode pagar o preço altíssimo de uma entrada no cinema, hoje gueto chique em shopping, onde só descolados podem entrar.

Resumindo: O pessoal que produziu o filme saiu ganhando. Acho, também que todos nós.

Em “Tropa de Elite”, além de entretenimento de primeira, vários assuntos desagradáveis são tratados, de maneira muito crua e, convenhamos, verdadeira.

A corrupção policial, como primeiro item, não é apenas uma vergonha. É produto de um sistema ineficiente, rígido em alguns pontos, frouxo em outros... tudo precisando de uma reengenharia urgente. O cara entra na corporação e, teoricamente, deve ser um exemplo de eficiência, coragem, obediência, inteligência... na prática, o que acontece é que policiais que deveriam estar nas ruas são um monte de coisas lá... cozinheiros, mecânicos, escriturários, tudo, menos polícia. E falta a polícia da polícia funcionar. Falta gente para verificar procedimentos. Metodologias. Táticas, estratégias, treinamento eficiente (há armas que atiram projéteis não-letais, baratíssimos, que servem perfeitamente para esse mister, mas parece que são totalmente esquecidas, apesar de usadas em outras forças, no mundo inteiro). Americano treina seus soldados e policiais com videogame... aqui...

A coisa não é só da PM... você entra numa Delegacia e sente um clima de desrespeito desde o começo. Tudo quebrado, sujo... policiais mal-vestidos, mal-encarados, mal-educados, muitos mais se parecem com os ladrões que eles perseguem. Escornados em cadeiras, insatisfeitos pelos salários que recebem, tratam mal pessoas mais humildes... e quem lá apareça com algum cargo importante (a não ser que seja muiiiitoo importante), às vezes, encontra “dificuldades” de outras formas. É uma máquina defeituosa, há pouca gente e menos ainda com entusiasmo. Carros quebrados, problemas com combustível, peças que precisam ser obtidas por licitações que demoooraaammm... A polícia técnica, coitada, sem gente, sem equipamento. Um horror. Policial honesto fica sem ter como externar suas qualidades... como?

E as drogas?

Bem... fazer o que, né? O mundo todo acha que proibindo, acaba. Ou diminui... ou pára de crescer.

Não acaba. Não diminui... cresce cada vez mais. Assustadoramente.

Para cada dólar aplicado na repressão às drogas, há mais de dez de rendimento para quem quer que se aventure no crime.

É preciso tomar conta disso tudo e para tanto, é necessário que se obtenham armas para defender as fortalezas, instaladas geralmente nos lugares mais pobres e populosos (e cheios de vielas e escadas íngremes, com milhares de esconderijos). E tem de ser coisa pesada, cara. Ou nem tão cara assim. Kalashnikovs (aqueles fuzis russos horríveis, que não são tão precisos, mas caem no chão, na lama, na areia e emergem prontos para atirar), bem como sua munição, são baratíssimos. Mas, podem acreditar, dinheiro para comprar esses brinquedos, não falta. Até os mais caros. E fornecedores, quando a grana é boa, também. Aliás, no filme, há uma cena que retrata bem isso... para cada arma aprendida, o dobro ou o triplo aparece, para substituir. Uma questão de mercado... sempre haverá oferta, se houver procura.

Então, com tantas armas, várias, por soldado do tráfico, “sobra” para os outros ramos da bandidagem. Assaltantes, nas mais variadas formas, “alugam” ou compram pistolas, metralhadoras, fuzis, na maior facilidade, criando um mercado paralelo e crescente, que não precisa de nenhuma formalidade para operar. Sem notas, sem licenças, só o dinheiro.

No caso específico das drogas, realmente há quem queira fumar, cheirar e injetar. Não adianta nadíssima brigar tanto com os fornecedores, se existe uma demanda alegre e de braços abertos, à procura da mercadoria.

O consumo existe (Grande constataçãããooo). Há dois patamares... o conhecido e o desconhecido. Se a gente pensar em liberação, no primeiro momento, vai parecer que um monte de pessoas está querendo “experimentar” o “barato”. Mas é ilusão de ótica (ou nasal, ou subcutânea). Muita gente que curte a coisa virá à tona e... claro, vai haver quem sempre teve curiosidade, mas o medo da Lei conteve. São adultos, na maioria... Já os garotos... aí só proibição mesmo. Como se proíbe venda de bebida. Mas não adianta pensar que meninos e meninas não vão experimentar... eles experimentam tudo, se quiserem. Basta que se abra os olhos, que se saia perguntando e apenas se fique esperando que o fornecedor tenha contato com seus fregueses. E é quase tudo no meio da rua, às vezes bem debaixo do nariz da Polícia. Pois é... a proibição é lucrativa para os dois lados. Os traficantes ganham muito, enquanto os policiais corruptos (tem mesmo... uma quantidade enorme e os honestos, que prezem suas vidas, não podem denunciar), recebem uma “comissão”, para fazer de conta que não estão vendo nada.

Mas, pelo menos, se a droga puder ser vendida em qualquer lugar, como cigarro, pagando imposto, então acaba o aviãozinho. Criança e adolescente não vão mais para o tráfico. Ah, sim... não vai acabar com o negócio clandestino. Taí a reportagem do Fantástico, sobre as bebidas falsas, para confirmar. Mas acaba com a corrupção e o dinheiro desperdiçado. Acaba também com essa coisa estúpida de fumigar plantação de maconha e outras plantas alucinógenas, prejudicando a natureza (uma quantidade enorme de bichos morrem e o solo fica contaminado). Afinal, basta que se plante em outro lugar... às vezes, no mesmo. Ou seja... todo mundo sabe que Pernambuco é um grande produtor de maconha... vão lá, descobrem, queimam, jogam pesticida etc., prendem um manezinho coitado morto de fome e... 3 meses depois está tudo lá de novo. Pernambuco continua lindo... a canabis plantada lá, também, vicejante, verdinha...

Então, não adianta esperar que as atuais políticas de perseguição ao sistema de distribuição de drogas tenham sucesso. SÃO UM FRACASSO! Algo desmoralizado. Ridículo. Por favor, não briguem comigo. Olhem as estatísticas. Vejam o que a própria polícia reconhece.

Aí, vem a pergunta... e por que não acabar logo com isso?

Complicado. Se o Brasil abrir, sozinho, o mercado de drogas, vai virar a Disneylândia do barato (o termo não foi inventado por mim). Aí vem tudo que não presta pra cá, para consumir, ficar doidão na rua, como acontece na Holanda, onde os habitantes locais não são afeitos à erva, mas os de fora lotam os Koffeeshops, ou seja, as lojinhas onde se pode comprar e fumar à vontade uma quantidade enorme de variedades de maconha. Paciência... se a proibição começou em algum lugar, a abertura também. Pelo menos vamos usar a Polícia para atividades mais nobres.

O pessoal da área de saúde fica de cabelo em pé, se houver um aumento de procura dos serviços já muito debilitados, pela aplicação maluca de recursos (dinheiro tem... o que falta é administrador competente e honesto). Mas o problema é que já acontece isso. De forma dissimulada, gente aparece com câncer disso, daquilo, proveniente do consumo de drogas. Ninguém pergunta, só trata... então provavelmente vai ficar a mesma coisa.

Com o fim da proibição, com a industrialização, a lucratividade dos bandos vai por água abaixo... não vai dar mais para ter arma sofisticada. Não vai ser fácil molhar a mão de policial (convenhamos, pé de chinelo não tem grana pra isso). Gente... o Estado brasileiro está falido. Tem de racionalizar.

O contrabando de armas, por falta de ter quem compre, vai ser bastante reduzido. E as balas perdidas, também.

Na prática, a concentração da Polícia Federal nas fronteiras, mais o estrangulamento econômico da criminalidade, também contribuirá para evitar a entrada de armas de fora. Uma maior atenção nos quartéis, sob a mira dos comandos e da própria PF, também propiciará uma redução do desvio de equipamento das Polícias Militares e das forças armadas. Do jeito que está, a complicação para aquisição de armas vale apenas para o particular. Ladrão tem livre acesso. Qualquer quadrilhazinha de assalto a posto de gasolina (eu vi com meus próprios olhos) tem metralhadora e balas de 9mm. E essas nunca foram vendidas em lojas.

Que tal usar o dinheiro canalizado hoje para combate às drogas para a educação das pessoas? Campanhas, como a antitabagista, que foi um sucesso, mostrando como são ruins os efeitos da droga? Muita gente que não fuma, hoje, tem essa atitude graças ao esclarecimento, o que aliás é DEVER do Estado (e que não tenho visto mais, na tv). Acho que não estou sendo ingênuo. Seco, duro e pragmático, talvez... mas vá tomar conta de um país sendo bonzinho...

Pára, a obra de arte, pela estação da violência policial, como um trem passa por um acidente sangrento. Acho que cada polícia tem a violência que sua sociedade comporta. Não se pode lutar uma guerra contra uma tropa sanguinária e alucinada, sem ser sanguinário e alucinado, também. Já imaginaram, os russos defendendo-se de soldados nazistas doidos por acabar com tudo no caminho, inclusive matando crianças e velhos e doentes, em nome de uma ideologia saída de um livro de louco? Já pensaram em alguém diante de um inimigo desses, sendo gentil, educado e cortês? Claro que não dá certo. Se o opositor é sangrento, violento, luta a qualquer custo, não se pode lidar com ele com flores. Não se enfrenta fuzil belga do século XXI com revólver 38... Nem granadas com sorrisos... e não se espere informações vitais, em pouco tempo, a troco de perguntas gentis... Isso, simplesmente, não existe. Uma vez um grande Defensor Público me disse que eu estava vendo Jack Bauer (do seriado 24 Horas) demais... eu respondi (e era verdade) que eu preferia ler “A arte da guerra”.

Para acabar com a polícia violenta, não adianta mandar os seus soldados fazerem crochê... Para uma polícia mais lhana, educada, é preciso um ambiente igualmente educado. Que tal educação de primeira para o povo? Que tal pensar, de agora em diante, SERIAMENTE a respeito disso?

Bem... isso tudo tem jeito. É preciso QUERER que tenha jeito. Senão, quem não vai ter mais jeito é o Brasil. Isso mesmo... “quem”... o Brasil, todos nós, humanos que vivemos aqui. Se o filme só tivesse o mérito (que tem) de provocar uma discussão sobre a temática aí em cima, já estaria de bom tamanho.